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Como é o ciclo de financiamento europeu 2028-2034

O maior orçamento da história da UE: ~2 trilhões de euros. O que muda e por que importa para organizações da América Latina e Caribe que olham para a Europa.

Em 16 de julho de 2025 a Comissão Europeia apresentou sua proposta para o próximo Quadro Financeiro Plurianual (MFF 2028-2034). É o maior orçamento da história da UE: cerca de 2 trilhões de euros a preços correntes, equivalentes a 1,26% da Renda Nacional Bruta média do bloco para esses sete anos. Para qualquer organização da América Latina e Caribe que olhe para a Europa como fonte de financiamento, este é o documento que define os próximos dez anos.

O que muda na arquitetura

O novo MFF reorganiza 21 programas existentes e reduz sua complexidade. Surgem dois grandes envelopes novos: os Planos de Associação Nacional e Regional, que consolidam política agrícola, coesão, pesca e migração sob planos únicos por Estado-membro, e o Fundo Europeu de Competitividade, que articula pesquisa, indústria, defesa e transição limpa sob uma única estrutura.

Para a América Latina e Caribe, o relevante está em três linhas concretas que mantêm autonomia: Horizon Europe (FP10), Erasmus+ e Global Europe.

Horizon Europe (FP10): quase dobra

A proposta destina aproximadamente 175 bilhões de euros ao Horizon Europe para o período, um aumento próximo de 63% em relação ao ciclo 2021-2027. A estrutura passa a ter quatro pilares:

  • Pilar I - Excelência Científica (~44,1 bilhões): ERC, Marie Skłodowska-Curie, JRC.
  • Pilar II - Competitividade e Sociedade: inclui Transição Limpa e Descarbonização Industrial (~25,3 bilhões), Saúde, Biotecnologia, Agricultura e Bioeconomia (~19,6 bilhões), Liderança Digital (~16,8 bilhões), Resiliência, Segurança, Defesa e Espaço (~6,4 bilhões), e uma janela específica de Sociedade (~7,6 bilhões) para pesquisa bottom-up sobre desafios sociais globais.
  • Pilar III - Inovação: continua o EIC e os EITs.
  • Pilar IV - Espaço Europeu de Pesquisa (~16,3 bilhões): Widening, infraestruturas, política ERA.

Dado-chave para a América Latina e Caribe: a proposta mantém de forma explícita a associação de países terceiros e reforça a dimensão internacional. Os montantes globais serão conhecidos apenas quando avançarem os work programmes específicos.

Erasmus+ 2028-2034: 36,2 bilhões, fusão com o Corpo Europeu de Solidariedade

O Erasmus+ funde-se com o European Solidarity Corps em um programa unificado, com um orçamento de 36,2 bilhões de euros a preços de 2025, o que representa um aumento conjunto próximo de 30% em relação ao ciclo atual. A nova arquitetura adota dois pilares:

  • Pilar 1 - Learning Opportunities for All: mobilidade de aprendizagem, voluntariado, DiscoverEU, bolsas em setores estratégicos (green tech, IA, saúde).
  • Pilar 2 - Capacity Building Support: cooperação entre organizações, partnerships for excellence e capacity building com países terceiros.

O Capacity Building in Higher Education segue sendo a linha histórica de acesso para a América Latina e Caribe, com um orçamento anual da ordem de 113 milhões de euros no ciclo atual e continuidade esperada.

O que isso significa para a América Latina e Caribe

Três leituras estratégicas.

Primeira: o dinheiro está lá, mas o funil se simplifica. Menos programas, modelos mais padronizados, maior uso de lump sums. Quem tiver capacidade institucional para candidatar-se agora encontrará processos mais previsíveis. Quem não a tiver encontrará uma barreira mais alta: já não se pode “aprender candidatando-se” tanto quanto antes, porque as chamadas fecham mais rápido.

Segunda: a dimensão internacional se mantém, mas se reorganiza. O Global Europe segue sendo o instrumento de cooperação externa, e aporta uma contribuição complementar ao Erasmus+ e ao Horizon Europe para ação internacional. O montante exato ainda não foi publicado, mas a lógica de associação com países terceiros se conserva.

Terceira: as primeiras chamadas sob o novo MFF abrirão entre o fim de 2027 e o início de 2028. Isso parece distante, mas não é. Montar consórcios competitivos leva entre 12 e 18 meses. Para candidatar-se no primeiro ciclo, é preciso estar mapeando parceiros europeus hoje, não em 2028.

Próximos marcos do processo

A proposta entrou em fase de negociação com o Parlamento Europeu e os Estados-membros. Espera-se acordo final por volta do fim de 2027. Até lá, os montantes podem se mover, especialmente sob pressão da European University Association e de outras redes que pedem elevar o Erasmus+ a 60 bilhões.

Na 2811 estamos acompanhando o processo desde Berlim e Bruxelas, traduzindo cada atualização em leitura acionável para organizações da América Latina e Caribe que querem se posicionar antes de a primeira chamada abrir.


Fontes: Comissão Europeia (julho de 2025), EU Budget 2028-2034 proposal · Parlamento Europeu, EPRS Briefing PE 775.885 · UKRO, Horizon Europe FP10 analysis · KoWi, EU Commission proposals for next MFF and Horizon Europe · ETUI (setembro de 2025), The Commission’s 2028-2034 MFF proposal.